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O expediente termina, mas o trabalho não: a saúde mental de jornalistas cearenses e como as empresas reagiram à atualização da NR-1

  • Curso de Jornalismo
  • há 2 minutos
  • 8 min de leitura

Por Débora Dias e Antônio Eudes


O ethos do jornalista é identificado pelas pesquisas como de um profissional cansado. Foto: Banco de imagens Pixabay
O ethos do jornalista é identificado pelas pesquisas como de um profissional cansado. Foto: Banco de imagens Pixabay

Textos finalizados em casa, noites mal dormidas em busca de pautas, rotinas exaustivas e acúmulo de funções são algumas das situações que caracterizam o trabalho do jornalista cearense. No estado, em meio a jornadas extensas e equipes reduzidas, a sobrecarga surge como algo naturalizado nas redações e em assessorias.


“Com o acúmulo de funções, você não faz apenas a reportagem. A gente trabalha como social media, redator, produtor de vídeo, com muitas atividades em paralelo”, revela a Fonte 1 (as fontes assim indicadas pediram anonimato em suas declarações, por temerem consequências indesejáveis em seu ambiente laboral).


“Eu trabalhava sozinha com o tripé, com o celular e um estabilizador de imagem. Eu fazia imagem, entrevistava, produzia e gravava passagem. Eu fazia tudo sozinha”, pontua a Fonte 2.


Os relatos são de jornalistas que atuaram em veículos locais e precisaram se afastar da rotina de reportagem diante do acúmulo de funções. Essa realidade não se restringe a profissionais já formados. Estagiários também relatam rotinas semelhantes, indicando que a precarização e o desgaste emocional já se manifestam no início da carreira.


“Chegou a um ponto em que eu acordava e chorava, porque não queria ir trabalhar. Estava muito cansado. Era uma rotina fisicamente exaustiva, com pautas externas que eu fazia sozinho”, conta à reportagem a Fonte 3. “Eu era estagiário, mas exercia funções de repórter. Além de entrevistar, gravava as imagens enquanto segurava o microfone”, acrescenta.


A maioria dos jornalistas cearenses se sentem estressados no trabalho


Os depoimentos refletem uma realidade recorrente no jornalismo cearense. Segundo o relatório Perfil do Jornalista Cearense 2024, a maioria dos profissionais no estado declara sofrer estresse no trabalho: 70,1%, índice que coloca o Ceará acima da média regional (64,6%) e nacional (66,2%).


Para Rafael Mesquita, presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado do Ceará (Sindjorce), esse cenário não é recente e decorre de “uma profissão historicamente precarizada, marcada por más condições de trabalho, intensificação da jornada, insegurança permanente, além de chefias autoritárias, má gestão e uma série de outros fatores que assolam o jornalismo”.


Os dados têm origem na pesquisa Perfil do Jornalista Brasileiro, realizada em 2021, uma construção coletiva liderada pelo Laboratório de Sociologia do Trabalho da Universidade Federal de Santa Catarina (Lastro/UFSC). A análise qualitativa dos dados, que resultou no Perfil do Jornalista Cearense, foi conduzida pelo Grupo de Pesquisa Práxis no Jornalismo (PráxisJor), vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Comunicação e ao Curso de Jornalismo da Universidade Federal do Ceará (UFC).

Para além do estresse, 20,7% dos jornalistas cearenses afirmam ter recebido diagnóstico de algum transtorno mental relacionado ao trabalho, e  24,7% relatam já ter recebido indicação para o uso de antidepressivos.


A sensação de falta de reconhecimento profissional atinge 57,4% dos jornalistas no estado, enquanto 42,2% revelam já ter sofrido assédio moral no ambiente de trabalho. “A falta de reconhecimento profissional aparece  de forma recorrente. Essa desvalorização simbólica do nosso trabalho, sobretudo nesse contexto que a gente vive hoje, de polarização somada à instabilidade contratual, gera um ambiente de trabalho que nós avaliamos que está sob permanente tensão e insegurança”, avalia Rafael Mesquita.


NR-1 passa a reconhecer riscos psicossociais no trabalho


Situações semelhantes vêm sendo reconhecidas como riscos relacionados ao ambiente de trabalho, o que motivou mudanças recentes na legislação brasileira voltada à saúde e segurança ocupacional. 


A Norma Regulamentadora n° 1 (NR-1) foi alterada pela Portaria do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) n° 1.419, de 27 de agosto de 2024, incluindo os fatores de riscos psicossociais relacionados ao trabalho.


A norma estabelece as disposições gerais relativas à segurança e saúde no trabalho, bem como diretrizes e requisitos para o gerenciamento de riscos ocupacionais e as medidas de prevenção em Segurança no Trabalho - SST.


De acordo com o Guia de Informações sobre os Fatores de Riscos Psicossociais, da Coordenação-Geral de Normatização e Registros do MTE, esses fatores dizem respeito a problemas na concepção, na organização e na gestão do trabalho, capazes de gerar efeitos psicológicos, físicos e sociais sobre os trabalhadores, como estresse, esgotamento e depressão. 


Com a atualização, a NR-1 passou a incluir esses fatores no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO), abrangendo situações como sobrecarga e assédios de diferentes naturezas.


A sobrecarga, revela os depoimentos, é parte da rotina do jornalista cearense. “Existem fatores de saúde mental na minha rotina de trabalho devido a baixa remuneração, uma vez que sou uma profissional terceirizada. Com isso eu sempre preciso fazer trabalho freelancer. Essa sobrecarga é o que gera estresse, ansiedade e exaustão,” pontua a Fonte 4.


“Muitas vezes a fonte não tem disponibilidade para fazer a entrevista de manhã, eu preciso fazer à tarde ou à noite. É um texto que eu tenho que terminar em casa porque o prazo é até o fim do dia”, revela a Fonte 5. “Isso já afetou relações minhas, já me falaram que mesmo fora do trabalho eu ainda estou trabalhando”, acrescenta. 

Norian Segatto, Secretário Adjunto de Saúde e Segurança da Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ), indica que  “a inclusão de avaliação dos riscos psicossociais é um avanço na proteção da segurança e saúde dos trabalhadores/as em geral, e dos jornalistas especificamente, que vêm sofrendo um crescente processo de precarização das condições de trabalho”. 


A precarização do trabalho jornalístico e a qualidade da informação


O modelo flexível de trabalho gera instabilidade e insegurança para os profissionais. Foto: Banco de imagens Pixabay
O modelo flexível de trabalho gera instabilidade e insegurança para os profissionais. Foto: Banco de imagens Pixabay

Instabilidade de emprego e de vínculos, falta de perspectiva de carreira, baixa remuneração, ausência de benefícios sociais e jornada extensa de trabalho são algumas das características que marcam o trabalho jornalístico precarizado, segundo Janara Nicoletti, jornalista e doutora em Jornalismo pelo Programa de Pós-Graduação em Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina (PPGJOR/UFSC).

Janara é autora da tese “Reflexos da precarização do trabalho dos jornalistas sobre a qualidade da informação: proposta de um modelo de análise”, que apresenta procedimentos metodológicos para analisar a correlação entre a precarização do trabalho jornalístico e a qualidade da informação.


“Na minha tese, percebi que jornalistas em situação mais precária acabavam privilegiando fontes oficiais, deixando de checar dados de terceiros, cometendo erros,  muitas vezes percebidos apenas após a publicação, e se tornando mais suscetíveis a influências externas ou internas da redação, como anunciantes, integrantes da diretoria e políticos”, aponta.


Fatores como violência, intimidação e assédio sexual e moral também contribuem para o adoecimento dos profissionais. Segundo o relatório Violência contra Jornalistas e Liberdade de Imprensa no Brasil 2024, produzido pela FENAJ, foram registrados 144 episódios de violência contra jornalistas no Brasil em 2024.


Janara aponta ainda que a necessidade constante de adaptação a novas plataformas e ferramentas, como o uso de inteligência artificial, é outro fator que contribui para o aumento do estresse e da ansiedade entre profissionais da comunicação.


Além dos efeitos externos, a precarização do trabalho jornalístico também afeta dimensões internas da profissão, como a disposição e o engajamento no dia a dia das redações. É o que explica Norian Segatto:  “o sofrimento mental é consequência direta dos ambientes de trabalho, que, em geral, são doentios, no sentido de precarizar ao extremo as condições laborais. É evidente que isso afeta o resultado do trabalho, o entusiasmo com que o profissional vai para a redação e o estímulo que ele ou ela tem para desenvolver um bom trabalho.”


O relato da Fonte 6 é revelador sobre esses aspectos:  “o estresse, junto com a desmotivação, a falta de estímulo e de reconhecimento e as recusas recorrentes de ideias, influenciou diretamente o conteúdo que eu produzia. Em alguns momentos, esses fatores me levaram a desistir de aprimorar atividades ou desenvolver propostas com maior profundidade. Infelizmente, prejudicaram meu engajamento e rendimento profissional”.


Para além da saúde mental e física, condições de trabalho precarizadas também impactam a qualidade da informação produzida e a credibilidade do jornalismo, avalia Janara.  “Se a qualidade do jornalismo decai, isso acaba sendo percebido pelo público como perda de profundidade do conteúdo e de diversidade de fontes, além do aumento na ocorrência de erros.”


A percepção também é compartilhada por profissionais entrevistados. “Eu não conseguia propor nenhuma ideia, nem desenvolver bem pautas simples, e tinha crises constantes que me atrapalhavam na escrita. Às vezes, eu esquecia de colocar informações essenciais”, conta à reportagem a Fonte 7.


“Nesse período em que minha saúde mental estava mais debilitada, cheguei a pensar que odiava a profissão e que eu era uma péssima profissional por não conseguir produzir da melhor forma”, acrescenta. A realidade afeta também estagiários. “Eu levei o meu corpo ao extremo, o meu emocional ao extremo, para entregar o melhor que eu podia. A sensação que eu tenho é que, se tivesse recebido um pouco mais de suporte, se alguém tivesse dito ‘você é estagiário, você não precisa lidar com determinadas coisas’, o meu trabalho poderia ter sido melhor”, relata a Fonte 8.


Medidas estruturais e organizacionais podem contribuir para a melhoria da saúde mental dos profissionais e da qualidade da informação produzida, aponta Janara: “são questões básicas de infraestrutura, como oferecer uma cadeira adequada para evitar problemas de coluna no futuro, garantir intervalos adequados e promover um ambiente em que todos possam expor suas opiniões, ser ouvidos e respeitados, sem discriminação, assédio ou práticas abusivas.”


O Sindjorce avalia que a saúde mental é um fator crucial para a qualidade do trabalho jornalístico: “Impacta sim a produção dos profissionais em todos os setores em que eles se organizam. Um profissional adoecido, ele não produz com qualidade porque inclusive aquilo que ele está fazendo causou o adoecimento dele”, complementa Rafael Mesquita.


O que dizem as empresas


A reportagem procurou empresas jornalísticas cearenses para apurar como o setor tem se preparado para a implementação da atualização da Norma Regulamentadora nº 1.  Kélvia Ribeiro, Editora Executiva da redação do Sistema Verdes Mares, informa que a empresa mantém um código de conduta interno e realiza treinamentos obrigatórios voltados ao combate ao assédio moral e sexual, situações previstas na NR-1. Segundo ela, quando há registros desse tipo de ocorrência, os casos passam  por apuração interna, com aplicação de sanções. 


“A empresa adota um sistema de auxílio psicossocial que disponibiliza psicólogos e todos têm a possibilidade de realizar terapia”, indica. Questionado especificamente sobre a implementação da norma, o setor de Recursos Humanos (RH) do grupo não respondeu até a publicação deste material. 


A Diretora de Gente e Gestão do Jornal O Povo,  Cecília Eurides, informa que a empresa realiza um trabalho contínuo de acolhimento, mesmo antes da atualização da Norma., “Aqui, na empresa, há muito tempo é feito esse trabalho. Já faz muito tempo que a nossa atenção é voltada mesmo para as pessoas que estão aqui”, afirma. Cecília destacou também que psicólogos compõem a equipe de RH da empresa e atuam para além do recrutamento e seleção, oferecendo acolhimento para ouvir possíveis queixas dos profissionais.


Em nota, Dellano Rios, Editor do Grupo de Comunicação Opinião CE, informa que a empresa está atenta a fatores como estresse, sobrecarga e pressão por produtividade. “Na redação, observamos esses e outros fatores para que não se transformem em abuso ou causa de adoecimento. Estimulamos o diálogo e temos uma redação bastante aberta, com contato fácil com chefias imediatas e com a alta gestão”, pondera. 


Além das empresas que responderam à reportagem, a equipe também tentou contato com o Grupo Cidade de Comunicação, o Sistema Jangadeiro e a URB News, mas não obteve retorno até a publicação deste material. A ausência de resposta ocorre em um contexto marcado pela sensibilidade e pela complexidade da temática abordada.


Um cenário que ainda exige mudanças


O Sindjorce avalia que não se observa uma mudança estrutural nessas empresas e que ainda há muito a ser feito. Há ações pontuais, principalmente por meio das convenções coletivas e cláusulas sobre assédio moral e sexual, mas isso não se reflete na rotina dos profissionais.


O Sindicato destaca a insistência para que o setor considere a saúde mental dos trabalhadores. “Na última década, isso foi cobrado sistematicamente com um reforço, sobretudo nos últimos cinco anos”, no entanto,  “o discurso institucional dessas organizações ainda está muito aquém dessas questões”.


Sobre a construção de relações de trabalho mais saudáveis, o Sindicato chama atenção para a necessidade de criar ações mais concretas, como canais de escuta e políticas efetivas de cuidado, não apenas “ações simbólicas”, mas ações “que consigam, de fato, fazer o mercado reproduzir ou construir novas formas de trabalho mais saudáveis”.






 
 
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